quinta-feira, 3 de março de 2016

Papa: “Como pai, Deus educa seus filhos e, quando erram, corrige-os favorecendo o seu crescimento no bem”



Thácio Siqueira  |  02/03/16

Mais uma audiência geral do Papa Francisco na praça de São Pedro acompanhado por milhares de peregrinos de todo o mundo, nesta quarta-feira. O pontífice refletiu sobre a relação entre a misericórdia divina e a correção.
Como de costume, antes do início da audiência, o Santo Padre deu uma volta no papamóvel pelos corredores da praça, para, assim, poder cumprimentar mais de perto os fiéis ali reunidos. Muitos levantavam suas faixas e bandeiras, e mostravam sua proximidade e entusiasmo pela passagem do Pontífice. E enquanto isso ele parava de forma especial quando se aproximavam algumas crianças, para dar-lhes a sua bênção.
No resumo da catequese que Francisco fez em português disse o seguinte:
“Na Sagrada Escritura, aparece Deus também com a amargura de um pai desiludido: gerou e fez crescer filhos, que agora se revoltaram contra Ele. Embora ferido, Deus deixa falar o amor e faz apelo à consciência destes filhos degenerados, para que se convertam e se deixem amar de novo. A missão educativa dos pais tem em vista fazer crescer os filhos em liberdade, torná-los responsáveis, capazes de fazer o bem. Mas, por causa do pecado, a liberdade torna-se pretensão de autonomia absoluta e o orgulho leva à contraposição e à ilusão de auto-suficiência. A consequência do pecado é um estado de desolação geral. Onde se rejeita Deus e a sua paternidade, não é possível haver vida: a existência perde as suas raízes, tudo acaba pervertido e aniquilado. Mas também esta dolorosa situação visa a salvação. Como pai, Deus educa seus filhos e, quando erram, corrige-os favorecendo o seu crescimento no bem. A provação é enviada para que possam experimentar a amargura de quem abandona Deus, vendo o vazio desolador duma opção de morte. O sofrimento, derivado duma decisão autodestrutiva, deve fazer reflectir o pecador para o abrir à conversão e ao perdão. A punição torna-se o instrumento para fazer reflectir. Vemos assim que Deus sempre quer perdoar ao seu povo: Ele não destrói tudo, mas deixa aberta a porta à esperança. O caminho do regresso não passa tanto pela multiplicação das ofertas rituais do culto – que devem exprimir a conversão e não substituí-la – como sobretudo pela prática da justiça. O culto sim, mas oferecido com mãos puras, evitando o mal e praticando o bem.”
Em seguida, cumprimentou os peregrinos de língua portuguesa, especialmente os fieis da paróquia Nossa Senhora do Lago de Brasília.
“Amados peregrinos de língua portuguesa, cordiais saudações para todos vós, de modo especial para os fiéis da paróquia de Nossa Senhora do Lago de Brasília. Sobre os vossos passos, invoco a graça do encontro com Deus: Jesus Cristo é a Tenda divina no meio de nós. Ide até Ele, vivei na sua amizade e tereis a vida eterna. Sobre vós e vossas famílias desça a Bênção de Deus!”
Depois de completar as saudações em diferentes línguas, Francisco dedicou umas palavras aos jovens, doentes e recém-casados. Dessa forma recordou que depois de amanhã será a primeira sexta-feira do mês, dedicada à devoção do Coração de Jesus. Por isso pediu aos jovens que passem o dia que lembra a morte de Jesus “com especial intensidade espiritual”. Convidou os doentes a olhar a cruz de Cristo “como apoio para o vosso sofrimento”. E para concluir exortou os recém-casados a exercitar na sua vida conjugal “o jejum das obras do mal e a prática das virtudes”.

terça-feira, 1 de março de 2016

Homilética: IV Domingo da quaresma



QUARTO DOMINGO DA QUARESMA
Ciclo C
Textos: Josué 5, 9a.10-12; 2 Co 5, 17-21; Lc 15, 1-3. 11-32
Ideia principal: Tiremos ao proscênio da nossa vida os personagens da parábola, sob a inspiração de alguns Santos Padres da Igreja.
Síntese da mensagem: O Papa Francisco diz na sua carta “Misericordiae vultus”: “Nas parábolas dedicadas à misericórdia, Jesus revela a natureza de Deus como a de um Pai que jamais se dá por vencido até que não tenha dissolvido o pecado e superado a rejeição com a compaixão e a misericórdia. Conhecemos estas parábolas; três em particular: a da ovelha perdida e da moeda extraviada, e a do pai e os dois filhos (cf. Lc 15,1-32). Nestas parábolas, Deus se apresenta sempre cheio de alegria, sobretudo quando perdoa. Nelas encontramos o núcleo do Evangelho e da nossa fé, porque a misericórdia se mostra como a força que vence tudo, que enche de amor o coração e que consola com o perdão” (n.9). O homem que teve dois filhos é Deus, que tem dois povos. O filho maior é o povo judeu; o menor, o gentil. A herança recebida do pai é a inteligência, a mente, a memória, o engenho e tudo aquilo que Deus nos deu para que conhecêssemos e louvássemos.  
Pontos da ideia principal:
Em primeiro lugar, o filho menor. É o povo gentil. Afastou-se da casa do Pai rumo a uma região longínqua, para esbanjar o tesouro e dissipar a herança que Deus prodigamente lhe tinha confiado. E lá nessa região do pecado a sua imagem e a sua semelhança que o Criador tinha impresso na sua alma foi se escurecendo. Queria uma liberdade sem limites. Deixou-se levar por enganos ilusórios, tratando de saciar a sede de felicidade que se aninhava no seu coração com os prazeres deste mundo. O que aconteceu? Caiu na mais profunda degradação espiritual moral existencial. Dois elementos foram fundamentais para voltar para casa: a reflexão e o sentido da família na formação espiritual dos filhos. Primeiro, a reflexão. Este filho menor refletiu. Deus permite a nossa miséria para que, voltando sobre nós mesmos, experimentando a nossa indigência, sintamos saudade da casa do Pai e voltemos ao único Bem que pode apagar a nossa sede de infinito. “Fizestes-nos, Senhor, para Vós, e os nosso coração está inquieto até não descansar em Vós” (Santo Agostinho, Confissões, I, 1). Será a reflexão sobre os nossos passos que nos permitirá conhecer-nos melhor à luz de Deus, confessando assim a nossa miséria. Santa Teresa de Jesus, mestra do diálogo entre a alma e Deus, dizia que o primeiro passo da vida de oração era conhecer-se à luz de Deus. E segundo, o sentido da família. Se este filho menor decide voltar é porque na casa do seu Pai sente segurança, o amor e a ternura do seu Pai, ademais das comodidades que lhe brindava a vida familiar. Atenção aos pais de família para que encham os seus filhos de carinho, calor e abraços, para que não se deixem levar das exigências da carne e dos paraísos enganosos da droga e das falsas ideologias! É na família onde se semeiam as primeiras sementes da fé se formam os hábitos que libertam os filhos da escravidão interior.   
Em segundo lugar, o filho maior. É o povo judeu cumpridor da lei, fiel à Aliança divina, guiado pelos Patriarcas e Profetas. Porém, pouco a pouco, um verme foi carcomendo esta fidelidade, o pior dos males, a soberba. Esquecendo que a eleição divina era um dom gratuito, e não algo que lhe era devido em justiça, começou a desprezar aqueles que tinham ido a regiões longínquas. Perdeu o sentido universal da sua missão, enterrou o talento que lhe tinha sido confiado, sem fazê-lo produzir para o bem de todos. Povo este sem misericórdia e despiedado com quem não cumpriam ao pé da letra o que eles consideravam a lei de Deus. Pensavam ter direitos diante do seu pai. Achavam que eram justos. À soberba e presunção do mérito próprio, juntaram o ressentimento, a inveja, a ira, a tristeza interior. Que pena, pois este filho maior veio para quebrar a sinfonia maravilhosa da casa e não quis entrar na festa da misericórdia!
Finalmente, o pai misericordioso. Misericordioso com o filho menor e com o maior, também. Com os dois usou da sua infinita misericórdia. Com o filho menor, misericórdia concretizada nestes detalhes: respeita a liberdade, sabe esperar com paciência o tempo da maduração do seu filho, recebe-o com júbilo e esplendidez, e o restitui na sua dignidade humana e espiritual. Com o filho maior, misericórdia concretizada nestes detalhes: sai para chamar o filho, convida-o à festa comum, suporta a humilhação do seu filho ao jogar na sua cara tanta misericórdia com o menor, e lhe diz que em casa não é escravo, mas filho, e que pode dispor dos bens da família. Derramou lágrimas de alegria, sim, pela volta do filho menor, mas também de tristeza e pena, pelo filho maior.
Para refletir: Sou consciente da luta e violência terrível que o demônio e o espirito do mundo desatam contra a família, contra a pureza do amor humano tal qual Deus os criou e redimiu em Cristo, contra a inocência das crianças despertando neles a desconfiança aos seus pais e à toda autoridade legítima, propondo “novos mestres”, falando de amor livre, de divórcio, chamando normais condutas destrutivas para a família, manipulando a vida humana pelos abusos da engenharia genética? Com qual dos dois filhos me identifico? Tenho coração misericordioso como esse pai da parábola?
Para rezar: Nunca melhor do que hoje para rezar o ato de contrição: “Meu Senhor Jesus Cristo! Deus e Homem verdadeiro, Criador, Pai e Redentor meu; por ser Vós quem sois, Bondade infinita, e porque vos amo sobre todas as coisas, pesa-me de todo coração ter-vos ofendido; também me pesa porque podeis me castigar com as penas do inferno. Ajudado pela vossa divina graça, proponho firmemente nunca mais pecar, confessar-me e cumprir a penitencia que for imposta. Amém”. Ou estas linhas de Santa Faustina Kowalska: “Desejo me transformar na vossa misericórdia e ser um vivo reflexo de Vós, ó Senhor. Que este maior atributo de Deus, isto é a sua insondável misericórdia, passe através do meu coração e da minha alma ao próximo. Ajudai-me, Senhor, para que o meu coração seja misericordioso, para que eu sinta todos os sofrimentos do meu próximo. A ninguém recusarei o meu coração. Serei sincera inclusive com aqueles dos quais sei que abusarão da minha bondade. E eu mesmo me fecharei no misericordiosíssimo Coração de Jesus. Suportarei os meus próprios sofrimentos em silêncio. Que a vossa misericórdia, xodó Senhor, repouse dentro de mim. Meu Jesus, transformai-me em Vós porque Vós podeis tudo. Amém”. (Diário 163).  
Qualquer sugestão ou dúvida podem se comunicar com o padre Antonio neste e-mail:  arivero@legionaries.org

“Quando Deus perdoa, o seu perdão é tão grande que é como se ‘esquecesse’”, disse o Papa Francisco



O pensamento do Papa, na homilia de hoje, é conduzido pelas leituras da liturgia. O Evangelho apresenta a célebre pergunta de Pedro a Jesus: quantas vezes devo perdoar um irmão que cometeu uma ofensa contra mim? A leitura, extraída do Profeta Daniel, é centrada na oração do jovem Azarias que, colocado no forno por ter se recusado a adorar um ídolo de ouro, invoca entre as chamas a misericórdia de Deus pelo povo, pedindo-lhe simultaneamente o perdão para si. Este, sublinha Francisco, é o modo justo certo de rezar. Sabendo contar com um aspecto especial da bondade de Deus:
“Quando Deus perdoa, o seu perdão é tão grande que é como se ‘esquecesse’. Todo o contrário daquilo que nós fazemos, das fofocas: ‘Mas ele fez isso, fez aquilo, fez aquilo outro …’, e nós temos de tantas pessoas a história antiga, média, medieval e moderna, eh?, e não esquecemos. Por quê? Porque não temos o coração misericordioso. ‘Trata-nos segundo a Tua clemência’, diz este jovem Azarias. ‘Segundo a Tua imensa misericórdia. Salva-nos. É um apelo à misericórdia de Deus, para que nos dê o perdão e a salvação e esqueça os nossos pecados”.
No trecho do Evangelho, para explicar a Pedro que precisa perdoar sempre, Jesus conta a parábola dos dois endividados, o primeiro obtém o perdão do seu patrão, mesmo lhe devendo uma cifra enorme, e pouco depois, é incapaz de ser também ele misericordioso com outro que lhe devia somente uma pequena quantia. Assim observou o Papa:
“No Pai-Nosso rezamos: ‘Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. É uma equação, vão juntas. Se você não é capaz de perdoar, como Deus poderá o perdoar? Ele quer perdoar você, mas não poderá se o seu coração estiver fechado, e a misericórdia não poderá entrar. ‘Mas, Pai, eu perdoo, mas não posso esquecer aquele mal que ele me fez …’. ‘Eh, peça ao Senhor que o ajude a esquecer’: mas isso é outra coisa. Pode-se perdoar, mas esquecer nem sempre se consegue. Mas ‘perdoar’ e dizer: ‘você me paga’: isso não! Perdoar como Deus perdoa: perdoar ao máximo”.
Misericórdia, compaixão, perdão, repete o Papa, recordando que “o perdão do coração que nos dá Deus é sempre misericórdia”:
“Que a Quaresma prepare o nosso coração para receber o perdão de Deus. Recebê-lo e, depois, fazer o mesmo com os outros: perdoar de coração. Talvez não me dirija a palavra, mas no meu coração eu lhe perdoei. E assim nos aproximamos desta coisa tão grande de Deus que é a misericórdia. E perdoando abrimos o nosso coração para que a misericórdia de Deus entre e nos perdoe, a nós. Porque todos nós precisamos pedir perdão: todos. Perdoemos e seremos perdoados. Tenhamos misericórdia com os outros, e nós sentiremos aquela misericórdia de Deus que, quando perdoa, “se esquece””.
[Rádio Vaticana]

“Spotlight”, a Igreja aprecia a mensagem de denúncia



O filme “Spotlight”, vencedor do Oscar de Melhor Filme, que aborda a questão da pedofilia na Igreja, foi definido pelo jornal do Vaticano, L’Osservatore Romano, “não como um filme anti-católico”, mas positivo, porque tem confiança de que o Papa Francisco derrotará este flagelo.
Assim indicou a editorialista do jornal da Santa Sé, Lucetta Scaraffia, em um artigo na edição de hoje, comentando o Oscar de Hollywood e o pedido feito ao Papa Francisco por Michael Sugar, produtor do filme. Ao receber o prêmio, Sugar disse: “Papa Francisco, é hora de proteger as crianças e restaurar a nossa fé”.
Entre outras vozes destacou-se a do bispo de Malta, Charles Scicluna, que “convidou a todos, também os bispos, a verem este filme”. Enquanto que da Comissão Pontifícia de proteção aos menores chegou o “apreço por este filme, e claramente pela mensagem que transmite”.
“Spotlight” fala do que aconteceu em 2002 no jornal The Boston Globe ao revelar os casos de pederastia na Igreja católica, e o encobrimento sistemático dos abusos sexuais cometidos por quase uma centena de padres nos Estados Unidos. O fato de que as acusações se tornaram públicas levou muitas pessoas a falar permitindo assim que se conhecesse a magnitude do fenômeno e a entender que não se tratava somente de casos isolados.
“O fato de que na cerimônia dos Oscar tenha-se feito um chamamento ao papa Francisco para que combata este flagelo deve ser visto como um sinal positivo”, destacou a editorialista do L’Osservatore Romano, embora reconhecendo que “dentro da Igreja há muitas pessoas que estão mais preocupadas pela imagem da instituição do que pela gravidade do ato”.
Em vez disso, acrescentou, “nada pode justificar a grave falta cometida pela pessoa que representa a Deus e que usa a sua autoridade para abusar de um inocente. Tudo isso está bem contado no filme”. Motivos pelos quais não é possível dizer que se trate “de um filme anti-católico”, disse.
“Há confiança em um Papa que continua a limpeza iniciada por seu antecessor desde que era cardeal”, disse Scaraffia. Embora também lamentou que não se mencione no filme “a longa e difícil luta” realizada pelo cardeal Joseph Ratzinger quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e, como Bento XVI.
O Papa Francisco exigiu e colocou em funcionamento medidas para que este flagelo seja erradicado da Igreja. No vôo de volta do México, o Santo Padre reiterou: “A pedofilia é uma monstruosidade porque um sacerdote foi consagrado para levar uma criança a Deus e depois a come em um sacrifício diabólico. A destrói”. E disse que “um bispo que muda um sacerdote de paróquia quando detecta uma pederastia é um inconsciente e o melhor que pode fazer é apresentar a renúncia”.
O sacerdote jesuíta Hans Zollner, membro da Pontifícia Comissão para a proteção dos menores, disse à Rádio Vaticano que a mensagem é uma chamada “para que a Igreja faça o que desde 2002 começou a fazer. Porque desde o final dos anos 90 o cardeal Ratzinger, prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, destacou que a Igreja não podeia mais tolerar estes abusos, nem os bispos cobri-los”. E depois como Bento XVI “deu grandes passos para tornar a Igreja uma instituição transparente comprometida na luta contra os abusos”. E em seguida o Papa Francisco instituiu a Pontifícia Comissão para a guarda dos menores.
O padre Zollner também lembrou que o bispo de Malta, Charles Scicluna, na primeira fila na perseguição destes crimes, alguns dias atrás, “convidou a todos, também os bispos, para ver este filme”. Há, portanto, “muito apreço por este filme e claramente pela mensagem que transmite”.